sábado, 14 de fevereiro de 2009

With or Without You [#2]

Naquela semana fui à tal rádio aonde meu pai tinha alguns amigos. Era uma rádio FM razoavelmente popular na cidade, o lugar onde eu iria tentar o emprego da Clara. Creio que esse seja um de meus vários defeitos (ou seria uma virtude, afinal?). Importar-me mais com os outros do que comigo mesmo. Não que eu não goste disso, muito pelo contrário. É uma das poucas atitudes que eu aprecio em mim mesmo. Devido à muitas situações acontecidas no meu passado criei esse "hábito".

Infelizmente não havia vaga disponível e seria muito difícil liberarem novas oportunidades. A maioria dos funcionários já tinha anos de carreira e se sentiam confortáveis com a posição da rádio, o salário razoável e os vários benefícios que ela trazia. Realmente era um ótimo lugar para se trabalhar apesar das baixas perspectivas de crescimento a longo prazo.

Agora, contar que não havia conseguido. A parte mais difícil.

Clara era de uma família simples e sua mãe há tempos vinha apresentando sintomas de depressão. No final do mês somavam-se os baixos salários de mãe, filha e a aposentadoria da avó que também morava na mesma casa bege número 108. A perda do emprego reduzia significativamente a renda total no fim do mês. Se confirmado o diagnóstico da doença, seria muito difícil manter todas as contas em dia. Talvez Clara tivesse que sair do colégio particular, um sacrifício feito pela mãe desde cedo para garantir o futuro da filha.

Certamente eu não poderia dizer isso assim, direto, logo depois de ela ter perdido o emprego. Iria falar primeiro com a Ju. Primeiro ela tinha que dar uma base de esperança para a garota, aquelas coisas que apenas nossos melhores amigos são capazes de dizer e que acabam com toda aquela vontade de desistir.

Liguei para Juliana.

(...)

- Ju, sabe sobre a Clarinha?

- Sobre?

- Ela perdeu o emprego na loja de discos..

(3 segundos)

Aqueles três segundos que acabam com toda a auto-confiança que a gente tem no momento e que provocam as palavras erradas a saírem pela nossa boca.

- Eu acho que você deveria falar com ela a respeito, sabe? - não era isso, ou melhor, não era pra ter dito dessa maneira.

- Sabe, Tom, já estou cansada de ouvir você falando sobre o que eu devo ou não fazer.

- Não, Ju, você entendeu errado..

- Quem é você pra mandar em mim?

Um clique, depois o barulho irritante da linha abandonada do outro lado.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Vila Rada

"If you're still alive
If you still haven't closed your eyes
If you're still rambling around at night
Then I'll be waiting here for you
I hope you know that I always loved you
Even though it's something I never said

(...)

I don't believe in much but I believe in you"

(Vila Rada - Nikola Sarcevic)

- Preciso de uma resposta, e gostaria que fosse sincero. - a impessoalidade trazida à tona pela tela do computador nunca havia sido tão perturbadora.

De fato o mundo virtual tem seus prós e contras. Tudo depende da ocasião. Nessa, em especial, a máquina se tornou imensamente cruel pois não permitia o contato visual. Reconhecer aquela íris castanho-escura.

Às vezes é mais fácil dar uma má notícia assim. Menos dor?

Senti aquela pontada no peito e que meus batimentos cardíacos haviam aumentado o ritmo consideravelmente. Uma dor aguda penetrava através do esterno até o  ponto mais profundo das minhas entranhas. Aquela dor. A dor que eu sinto quando alguma coisa não vai bem, só que dessa vez estranhamente mais forte, mais intensa.

- Ok, pode dizer. - Claro que ela não iria dizer. Talvez fosse mais uma daquelas coisas que a gente apenas escreve em um pedaço qualquer de papel e joga por aí. Coisas que não temos coragem de contar ao mundo nem a quem interessar. É difícil assumir uma responsabilidade.

- Você me ama?

Toda a máquina abaixo da caixa toráxica parece ter congelado naquele momento. Apesar da inquietação não sabia qual era a real proporção do "problema". Aquelas três palavras em roxo, provavelmente o mesmo Arial 12 dos trabalhos, só que em negrito, utilizado somente quando queremos destacar algo realmente importante. E de fato, toda a conversa deveria ter sido em negrito.

15 segundos, talvez mais.

Bad boys, bad boys, what are ya gonna do?

- Eu quero dizer.. eu sei que você me ama, mas eu queria saber se era realmente algo mais do que amizade, entende?

- É, eu amo. - soou rude. Malditos computadores.

- Sabe Tom.. há um certo tempo meus outros amigos vem comentando sobre isso. Acho que nunca vi, realmente. Mas há algumas semanas comecei a perceber nitidamente. A maneira como você me tratava, o modo como falava comigo. Mas eu tenho que dizer..

(três segundos, cinco segundos)

- Eu não amo você como você me ama. Eu não gostaria que as coisas tivessem chegado à esse ponto.

O que você faria? Entre a última frase e a minha resposta um turbilhão de idéias passou por minha cabeça. Começava a notar um início de dor de cabeça, latejando nas têmporas. Me senti uns trinta anos mais velho. 

- É por causa de outra pessoa?

- Existe outra pessoa, mas ela não é o motivo. Eu não sou a pessoa certa pra você, Tom.

Pessoa certa? Quando podemos definir quando alguém é "certo" para nós. Antes disso, o que é "certo"? Naquela hora eu percebi que talvez eu fosse certo demais. Talvez todas as vezes em que me humilhei, me torturei pelos problemas dela ou que liguei perguntando se estava tudo ok não tivessem valido nada. Por ela eu até fiz uma música. Deixei minha unha voltar a crescer só pra usar um dia como pretexto pra tentar usar aquela maquininha horrível de lixar. Assisti um filme que eu tinha certeza que não ia gostar. Só pra me certificar que tudo ia ficar bem quando ela voltasse pra casa. Quanta coisa eu fiz..

Se valeu a pena? Valeu. Apesar de tudo valeu. 

"Você é como um irmão"

E no fundo sabia que o que eu queria realmente era que ela seguisse o caminho que lhe havia sido predestinado. Se um outro dia iríamos voltar a ter essa conversa, com um final diferente, não havia se passado nada pela minha cabeça. Afinal, o que me importava, realmente, era que ela fosse feliz. E eu continuo aqui no meu caminho. Torcendo pra que tudo dê certo, de dedos cruzados pra que tudo o que ela faça tenha êxito. Enquanto isso sigo minha sina. Perder amigos, ganhar amigos, ajudar no máximo o maior número de pessoas que eu conseguir. Acho que isso é o que me dá força pra passar tudo isso e continuar com a cabeça erguida, mesmo que com o coração despedaçado.

Ela é perfeita e eu ainda a amo. Um amor em negrito.