quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Who Feels Love [#3]

Saí quase correndo, colocando desajeitadamente os sapatos pretos que havia ganhado de meu pai.

"Tom? Como é que ele sabia meu nome? Será que ela falou alguma coisa sobre mim? O quê?"

Foram as 3 quadras mais longas que já andei.

Eram quase 10 horas. Cheguei na portaria respirando pesado.

- Eu tenho que entregar um presente para a Juliana, posso subir?

- Lamento - disse o porteiro - não permitimos a entrada de estranhos depois das 10h.

- Estranho? Eu sou apenas um amigo do colégio. - Estava irritado pela maneira que aquele sujeito me tratava e por não poder concluir minha tarefa.

- Olha aqui rapaz, pega esse presente e volta pra casa. Ninguém vai sentir falta de um presente por aqui. Mas se quiser eu fico com ele e entrego. 

O porteiro tinha um ar duvidoso. Jamais deixaria meu presente com ele. 

- Cara, eu só preciso entregar o presente. Só isso..

- Ô moleque.. pára com isso! Pega essa merda de presente e se manda daqui!

Senti que iria pular no pescoço daquele homem, mas sabia também que iria me arrepender. Ainda não tinha músculos pra fazer aquilo. Enfim, como um bom derrotado abaixei minha cabeça e dei meia volta.

TOM!

De novo aquela voz que me fazia gelar a espinha.. Virei-me e vi.. Professor Júnior?

- Entre aqui, garoto. - disse ele em uma voz quase paternal.

Assenti com a cabeça e o segui. Passei diante do porteiro com uma vontade imensa de abaixar as calças e mostrar minha bunda branquela. Resisti bravamente.

- Então teve um imprevisto, é?

- Tive sim. Tive que.. ajudar minha mãe a arrumar a sala. Sabe como é, quando chegam visitas..

Foi uma mentira deslavada e tenho certeza que ele percebeu que aquela não era a verdade, mas limitou-se a dizer um "sim, sim" tão falso quanto minha resposta.

Aquelas 3 quadras demoraram pouco perto do tempo em que ficamos no elevador. Parecia que todos do prédio queriam sair ao mesmo tempo, então sempre estávamos parando de andar em andar. Chegamos, então, ao dito apartamento da Juliana. Sempre soube que moravam naquele prédio. Sempre a deixávamos na portaria depois das aulas, já que fazia parte do trajeto de volta de boa parte da minha turma. O que eu não sabia é que ela era filha do Júnior.

O professor entrou e eu me mantive ao pé da porta. Juliana estava na sala, sozinha, contemplando com olhos vazios um prato outrora ocupado por algum canapé ou outro petisco qualquer.

- Juliana, você tem visita..

Ao ouvir, a menina levantou o queixo, indiferente. Ao me observar na porta segurando o pacote rosa com um laço dourado um tanto quanto exagerado levantou-se rapidamente. Quase desajeitadamente, eu diria.

- Oi Tom.. 

- Oi Ju.

- Eu pensei que você nem viria..

- Pois é, mas eu vim. 

(Três segundos)

- Eu.. eu trouxe um presente pra você..

- Sério? - até hoje não sei se aquilo foi sarcasmo - Obrigada. - Me abraçou e deu um beijo quase imperceptível na bochecha. Enrubesci.

- Bem.. eu acho que já é meio tarde.. Desculpe encomodá-la. Eu não queria...

- Tudo bem. Quer que eu te leve na portaria? - o canto esquerdo da boca denunciou arrependimento.

Aí seguimos. Dei boa noite para o Professor e para a mãe de Juliana, cujo nome ainda hoje não me recordo. O elevador pareceu descer mais rápido que o normal. Nenhuma parada entre o décimo quarto andar e o térreo. O porteiro felizmente já havia trocado de turno e eu não precisaria encará-lo novamente.

- Obrigado por ter vindo Tom.

- Desculpa não ter vindo antes.

Dois sorrisos. Um meu e um dela.

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