Naquela semana fui à tal rádio aonde meu pai tinha alguns amigos. Era uma rádio FM razoavelmente popular na cidade, o lugar onde eu iria tentar o emprego da Clara. Creio que esse seja um de meus vários defeitos (ou seria uma virtude, afinal?). Importar-me mais com os outros do que comigo mesmo. Não que eu não goste disso, muito pelo contrário. É uma das poucas atitudes que eu aprecio em mim mesmo. Devido à muitas situações acontecidas no meu passado criei esse "hábito".
Infelizmente não havia vaga disponível e seria muito difícil liberarem novas oportunidades. A maioria dos funcionários já tinha anos de carreira e se sentiam confortáveis com a posição da rádio, o salário razoável e os vários benefícios que ela trazia. Realmente era um ótimo lugar para se trabalhar apesar das baixas perspectivas de crescimento a longo prazo.
Agora, contar que não havia conseguido. A parte mais difícil.
Clara era de uma família simples e sua mãe há tempos vinha apresentando sintomas de depressão. No final do mês somavam-se os baixos salários de mãe, filha e a aposentadoria da avó que também morava na mesma casa bege número 108. A perda do emprego reduzia significativamente a renda total no fim do mês. Se confirmado o diagnóstico da doença, seria muito difícil manter todas as contas em dia. Talvez Clara tivesse que sair do colégio particular, um sacrifício feito pela mãe desde cedo para garantir o futuro da filha.
Certamente eu não poderia dizer isso assim, direto, logo depois de ela ter perdido o emprego. Iria falar primeiro com a Ju. Primeiro ela tinha que dar uma base de esperança para a garota, aquelas coisas que apenas nossos melhores amigos são capazes de dizer e que acabam com toda aquela vontade de desistir.
Liguei para Juliana.
(...)
- Ju, sabe sobre a Clarinha?
- Sobre?
- Ela perdeu o emprego na loja de discos..
(3 segundos)
Aqueles três segundos que acabam com toda a auto-confiança que a gente tem no momento e que provocam as palavras erradas a saírem pela nossa boca.
- Eu acho que você deveria falar com ela a respeito, sabe? - não era isso, ou melhor, não era pra ter dito dessa maneira.
- Sabe, Tom, já estou cansada de ouvir você falando sobre o que eu devo ou não fazer.
- Não, Ju, você entendeu errado..
- Quem é você pra mandar em mim?
Um clique, depois o barulho irritante da linha abandonada do outro lado.

